Angélica Dias e Daniela Mendes

Um século de portas abertas

O comércio centenário em Braga

Um século de portas abertas
O comércio centenário em Braga

Fernando Areias chega ao meio dia. Nas “Frigideiras do Cantinho” as mesas já estão prontas para a hora do almoço. O ritual repete-se há mais de 200 anos. O espaço já foi gerido por várias famílias. Hoje, Fernando Areias é o responsável pelo restaurante e pelas ruínas. O legado romano foi descoberto em 1997 aquando de obras de remodelação.

“Quando se fez a obra não se sabia que havia ali uma ruína tão nítida e definida que pudesse gerar um museu tão perfeito”, disse Fernando Areias. O achado permitiu estabelecer uma parceria com o Museu D. Diogo de Sousa. Daqui, nasceu a oportunidade de recriar a receita do bolo romano que estava, até então, na posse do museu. A ideia da confeção do bolo surgiu a propósito das comemorações dos 2000 anos da cidade de Braga. “Para nós era um mistério. Quando nos deram a receita não sabíamos o que ia sair dali”, afirmou o responsável.

No entanto, a história da casa confunde-se, por vezes, com a história das frigideiras. Massa folhada e carne picada são os únicos ingredientes aparentemente necessários. O resto é segredo. Contudo, não é segredo a confeção manual do pastel folhado.

Mas Fernando Areias não é o único à frente de uma casa centenária. Também Carolina Pinheiro é responsável por um dos cafés mais conhecidos da cidade de Braga.  “Alguém que vem a Braga vem à Brasileira. É uma paragem obrigatória e um café emblemático”, disse. Desde 1907 que a principal atração é o café de saco, num espaço que procura manter a história e os traços característicos do início do século XX.

 
 

“A Brasileira consegue reunir num mesmo espaço diferentes gerações: em baixo temos os clientes mais tradicionais e antigos que veem cá diariamente. (…) No primeiro piso já é mais apelativo para os jovens. Aqui reunimos diferentes gerações”, referiu Carolina Pinheiro.

Do outro lado do centro histórico encontra-se a Doçaria São Vicente, agora nas mãos de José Alberto. “O espaço está na família há 50 anos”, afirmou. Em 1829, a Doçaria funcionava apenas duas vezes por semana. Hoje, o local encontra-se renovado mas mantém os mesmos traços da pastelaria tradicional.

O bolo-rei especial, o doce sortido e os fidalguinhos são as especialidades da casa. “O bolo-rei especial é único na zona e a nível nacional. É um bolo-rei que não leva massa: é feito com frutas cristalizadas, é fechado com uma capa e leva pinhão, noz e amêndoa picada”, disse.

Os doces sortidos são um conjunto de pequenos bolinhos usados, muitas vezes, para acompanhar um chá. Já os fidalguinhos “são um doce bastante conhecido” procurado por visitantes de Lisboa e do Porto.

“Ainda fazemos tudo à moda antiga. Usamos ovos caseiros e os cremes são todos feitos manualmente. Não há maquinaria nem está industrializado”, afirmou José Alberto.

O que explica a longevidade das lojas tradicionais?

A qualidade dos produtos, o atendimento personalizado ao cliente, a possibilidade de pagar em prestações e a facilidade das reclamações são os motivos apontados pelos consumidores para preferirem as lojas tradicionais em contrapartida das grandes superfícies comerciais. Estas vantagens são, também, partilhadas pelas lojas centenárias. 

Para além disso, “a existência de estabelecimentos com antiguidade é crucial para a diferenciação da oferta comercial de Braga face a outras cidades e outros formatos comerciais que competem com o centro de Braga”, disse Rui Marques, diretor geral da Associação Comercial de Braga (ACB).

Uma procura além-fronteiras

A maioria dos turistas procura, também, conhecer os espaços, as histórias e as tradições que são, muitas vezes, sugeridos pelos roteiros turísticos: “Curiosamente, também verificámos uma presença de turistas, especialmente, espanhóis”, disse o responsável pelas “Frigideiras do Cantinho”.

Grande parte destes turistas acaba, muitas vezes, por regressar a estes locais, o que se traduz num aumento de exigência e de qualidade de forma a responder às expectativas dos clientes.

“Os turistas são muito importantes para nós. Param lá fora para tirar fotografias, entram e querem saber um pouco da história da casa”, referiu Carolina Pinheiro.

Os centenários também atravessam crises

Apesar da sua longevidade, a maioria das lojas continua a ter barreiras por superar. “As pessoas têm dificuldades em aceder aqui. Sente-se isso e os clientes dizem-nos isso. E o estacionamento é pago e caro”, disse Fernando Areias.

Segundo dados da Associação Comercial da cidade, nos últimos anos, tem-se verificado uma diminuição do número de lojas centenárias, uma vez que “o tempo médio de vida dos estabelecimentos comerciais tem vindo a diminuir”, afirmou Rui Marques.

A somar a isto, as dificuldades são ainda mais sentidas devido ao momento de austeridade que o país atravessa. A elevada carga fiscal no setor da restauração e a redução do poder de compra são os principais obstáculos. 

“Nós não temos menos clientes, temos menos consumo. O que é que isto significa? Significa que vem mais ou menos o mesmo número de pessoas mas consomem menos. No entanto, eu tenho que garantir a mesma infraestrutura para os receber”, afirmou o responsável pelas “Frigideiras do Cantinho”.

A aposta na produção tradicional implica custos e mão-de-obra difíceis de suportar num cenário de crise. Para além disso, as obrigações inerentes ao comércio tradicional são semelhantes às de qualquer outra empresa: “Não somos só um café, somos uma empresa que tem compromissos, preocupações e responsabilidades e estamos aqui, dia após dia, a tentar superar cada dificuldade que nos vai surgindo”, disse Carolina Pinheiro.

O papel das instituições locais

As casas centenárias são vistas pelas principais organizações comerciais de Braga como pontos de referência para a imagem da cidade que é necessário preservar e apoiar. As ações de rua que atraem os bracarenses ao centro histórico e a realização de projetos em parceria são algumas das apostas da Associação Comercial de Braga e da Câmara Municipal.

Contudo, “não existem medidas concretas por parte de nenhuma organização para proteção deste tipo de estabelecimentos”, referiu o diretor geral da ACB. Apesar disso, são estabelecidas algumas parcerias que promovem o apoio às casas centenárias através de animações de rua e da recuperação de receitas antigas. O Bolo-rei gourmet e a tarte de São Tiago foram produtos relançados pela Doçaria São Vicente em parceria com a Câmara Municipal de Braga. As viúvas são outro dos doces recuperados juntamente com a ACB.

“Estes estabelecimentos (…) arrastam consigo muitas histórias e muitas vivências, que dizem muito do que é ser Bracarense”, disse Rui Marques. Com mais de 100 anos, estas lojas são referências históricas e turísticas da cidade dos Arcebispos. A satisfação do cliente, a qualidade dos produtos e a tradição vão continuar a ser a chave que mantem aberta a porta destas lojas centenárias.